segunda-feira, 6 de outubro de 2008

pesquisa refrente ao amorim lima

Perfil: A diretora da escola sem paredes
Alexandra Ozorio de Almeidafree-lance para a Folha de S.PauloDurante todo o dia, e noite adentro, quem passar na frente do colégio municipal Amorim Lima verá um carro mal estacionado com o adesivo "Motorista amaciando". Por sorte, a dificuldade de Ana Elisa Siqueira em conduzir máquinas é inversamente proporcional a sua capacidade de dirigir uma escola.
Cris Bierrenbach/Folha Imagem
Ana Elisa Siqueira, na sala de leitura do colégio Amorim Lima
A Emef Desembargador Amorim Lima vem causando alvoroço na rede pública paulistana. Em fevereiro, foi dada a partida a um ousado projeto piloto: implementar uma metodologia de ensino inspirada no trabalho desenvolvido pela Escola da Ponte, de Portugal (leia mais).O resultado: capoeira, teatro e educação ambiental entraram na grade curricular, paredes foram derrubadas e alunos passaram a decidir com professores seus objetivos de aprendizagem e as formas de avaliação empregadas."Antes, acreditava que só a revolução resolveria, mas hoje em dia penso que, com boas escolas, a gente já consegue fazer uma revolução. Realizar um bom trabalho no Amorim faz diferença", acredita a pedagoga.De uma família de advogados e políticos, Ana nasceu há 40 anos em São Paulo e estudou no tradicional Colégio Sion. Depois de cursar pedagogia na PUC-SP, fez a prova para se tornar professora municipal. Formada em instituições particulares, sempre trabalhou em escolas públicas. "É uma questão política: preciso estar onde está a maioria. A perspectiva no espaço público é muito maior, e essa foi a minha opção desde sempre. Não é só trabalho, é ideal de vida."A militância tem seu preço: as jornadas de trabalho, que freqüentemente passam de 12 horas, levam o marido a reclamar que ela se casou com a escola. Ana é casada com o arquiteto e artista plástico Will Alves, 53, com quem tem um filho de quatro anos, Pedro Generoso. Formado pela FAU-USP, Will tem um currículo que não faz feio ao lado do da diretora. "Ele criava esculturas de madeira, mas não gostava do sistema de marchand. Will criou o primeiro pente de madeira brasileiro, que chegou a ser exportado para a Europa", conta a mulher coruja. A concorrência chinesa derrubou o preço de seu trabalho artesanal, e hoje Will cria tinas de ofurô, caixinhas de segredo e outros objetos de madeira em seu ateliê na Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo. "Mas ele é supercompreensivo, um excelente ouvido, e reconhece que meu trabalho é muito importante", diz ela."Com todos os problemas que a escola pública tem, é preciso viver aqui para que fique um pouco melhor", completa.

Raio-XNome: Ana Elisa SiqueiraIdade: 40 anosFamília: casada com Will Alves, 53, e mãe de Pedro GenerosoFormação: pedagoga pela PUC-SP, cursou também dois anos de filosofia na mesma faculdadeOcupação: diretora de escola municipalHobbies: culinária e cerâmica

Ana soma 20 anos na rede municipal. Depois de dar aula para crianças de primeira a quarta série e ser professora de pré-escola, decidiu prestar concurso para coordenadora pedagógica. Foi nesse cargo que percebeu a inclinação para o cargo de diretora. "Queria mais, tinha vontade de discutir uma proposta de educação e dar minha cara ao projeto", explica, mastigando um cravo do pote que perfuma sua sala no Amorim.Ao decidir mudar de função, escolheu a dedo a escola que dirige há sete anos. "A escola tem uma clientela variada, de pais analfabetos a universitários, o que possibilita trabalhar com uma ampla diversidade de pessoas e culturas", afirma. Ana viu no grupo de pais e alunos um "germe de participação" que gradualmente aumentou em quantidade e qualidade. "É uma comunidade muito parceira", elogia a diretora.As mudanças no Amorim Lima começaram com diversos trabalhos de formação, financiados pelo MEC, dos quais participavam desde funcionários de limpeza até a diretora. Outros trabalhos incluíram parcerias com instituições como Vereda (que segue a proposta do educador Paulo Freire), Instituto Pichon-Rivière e Praxis. "Essa formação foi essencial para darmos um norte ao nosso trabalho", afirma.Em outro fronte, a escassez de funcionários levou algumas mães à escola nos recreios, para cuidar das crianças. Elas começaram a organizar brincadeiras com alunos de primeiro e segundo ano, e, em 1998, nasceu o projeto Oficina de Cultura Brasileira. Nessas oficinas, alunos de todas as séries podem ficar na escola para aulas de capoeira, dança brasileira, música e educação ambiental, entre outras atividades. As oficinas foram o embrião da revolução implementada neste ano —tratada por todos como "o projeto". "Trabalhar com as tradições brasileiras oferece a oportunidade de lidar com a diversidade também no trabalho de cultura. Traz conflitos, traz vida. Nos dá a oportunidade de falar dessas questões", diz a diretora.Com o aval e o financiamento da Secretaria Municipal de Educação, foi dada a largada em outubro de 2003. "Decidimos apoiar o projeto porque vimos que era muito consistente e que pais e professores estavam convictos", conta a secretária municipal de Educação, Maria Aparecida Perez. "Afinal, o sucesso depende do envolvimento deles: é uma proposta na qual todos participam da construção e da solução dos problemas. E foi a escola que pediu o projeto, em nenhum momento foi algo imposto", acrescenta. Implementado no primeiro semestre deste ano, o projeto piloto cobre o primeiro e o quinto ano do ensino fundamental. A turma do primeiro ano conta com dois professores "gerais", e o trabalho é pautado na leitura, na escrita e nas "contas". "Especialização antes da oitava série é absurdo. O ensino deve ser integrado", defende Ana. No quinto ano, em vez de um professor de história e outro de português, por exemplo, existem três professores que trabalham com todas as áreas do conhecimento e estão sempre juntos em sala de aula.O pressuposto do projeto é a busca de aprendizado pessoal dentro de um processo e de um espaço coletivos. Para concretizar a teoria, o primeiro passo foi derrubar as paredes entre as classes. "Dentro desse espírito, os professores também precisavam ficar juntos, para compartilhar experiências e poder discuti-las", explica a diretora.O segundo passo foi inserir oficinas —de inglês, arte, educação física, teatro, capoeira, leitura, informática e educação ambiental— na grade curricular. Cada uma dessas duas séries piloto, com 105 alunos, foi dividida em 21 grupos de 5 estudantes, que revezam as atividades entre a classe e as oficinas. Em geral, ficam 25 alunos na sala de aula. "Isso elimina um dos problemas crônicos da escola pública: aulas vagas devido a professores que faltam. Mesmo com dois ausentes, um dá conta de uma sala com 25 pessoas", diz Ana.Os alunos sempre trabalham coletivamente em atividades pessoais —podem pedir ajuda aos colegas e compartilham oficinas, mas as tarefas são individuais. Eles trabalham por objetivos, dentro das áreas propostas pelos professores. Uma vez por semana, há a tutoria, quando a ficha de organização semanal de cada aluno é discutida, e o progresso da semana, analisado.Ainda recém-nascido, o projeto já apresenta aspectos positivos. Um deles é que a presença simultânea de vários educadores ameniza conflitos entre aluno e professor, pois a terceira pessoa faz um contraponto. "Trabalhar em grupo é muito difícil, mas já vemos bastante avanço", diz Ana. Tudo o que é novo causa um certo desconforto, mas Ana tem na ponta da língua a resposta aos críticos. "A escola está totalmente de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases. Nosso projeto respeita a proposta dos ciclos, a importância do tempo de cada aluno, a busca pela avaliação constante por objetivo", enumera. Outra crítica que costuma ouvir é que, caso o modelo fosse adotado por toda a rede, haveria uma redução nas vagas para professores por disciplina. "Não diria que temos recebido críticas", ameniza a secretária de educação. "A questão é que as pessoas estranham muito: pais, professores, as pessoas ficam receosas." Maria Aparecida Perez acrescenta que outras escolas da rede estão interessadas no projeto e vêm observando-o e discutindo idéias. "Cada escola deve pensar o seu projeto, adaptá-lo para a sua realidade", ressalta.Aos que pedem resultados concretos, Ana responde que é difícil medir felicidade e integração. "Não é um trabalho quantitativo. Vejo alunos, professores, uma escola inteira mudando de atitude. Sei que alguns professores reclamam que, comigo, precisam 'rezar pela cartilha'. Mas também sei que é o preço a ser pago por ter um projeto", afirma. A meta do Amorim para 2005 é ainda mais ambiciosa: expandir o projeto para todas as séries. "Vimos que não dá para ter duas escolas em funcionamento ao mesmo tempo. Ou é para todos, ou não é para ninguém."O entusiasmo contagiante da diretora é um pré-requisito importante para o rali profissional que escolheu. "Para trabalhar com a coisa pública, é preciso acreditar. Eu acredito que a gente faz a diferença, e é essa força que me motiva todos os dias", diz. Ana desconfia que a sua perseverança tenha sido moldada na piscina. Ela foi nadadora de fundo, competindo nas provas de 400 m e 800 m, além de praticar travessia de mar. "Na natação, é preciso ter força para continuar, saber que não é tão fácil. E perseverança é fundamental no trabalho em educação. O resultado não aparece quase nunca."No seu pouco tempo livre, Ana corre para as panelas. "Sou uma supercozinheira", conta, sem modéstia. Ela aprendeu a cozinhar quando se casou, há 15 anos, e prepara jantares completos diariamente. "A exceção é a sobremesa, que preparo uma vez por semana e precisa durar", confessa.O fato de estar virando sua escola de ponta-cabeça não parece preocupá-la. Ana reconhece não ter todas as respostas e acha isso bom. "O inusitado tem de estar presente. É preciso estar o tempo todo aprendendo, mas a formação só tem sentido quando exigida pela prática."EMEF Des. Amorim LimaMais do que uma Metodologia de Ensino, uma Mudança de Concepção.
A EMEF Desembargador Amorim Lima
Tudo começou em 1931 e nasceu como a primeira Escola Isolada da Vila Indiana em São Paulo. Em 1960 passou a ser Escola Agrupada Municipal da Vila Indiana com 14 classes. A partir de 15 de março de 1968 a escola passou a funcionar em prédio próprio, de alvenaria, à Rua 5, s/nº, atualmente denominada Rua Professor Vicente Peixoto, s/nº no Butantã e denominou-se como Escola de Primeiro Grau “Desembargador Amorim Lima”. Somente em 1996, quando obteve seu próprio regimento escolar consagrou-se com EMEF “Desembargador Amorim Lima”.
Conhecer a EMEF Desembargador Amorim Lima é apaixonante. É simples, fácil e encantador passear pela escola, conhecer o trabalho e a metodologia de ensino desenvolvida.
Fachada da Escola
Os estudantes da Amorim Lima alcançam 19,6% da população situada na faixa etária entre 7 e 14 anos da região. Existe uma heterogeneidade sócio-econômica em seu corpo discente, alunos de todas as classes sociais freqüentam a escola, com predomínio dos que são membros de famílias de menor nível de renda, entre os quais se incluem alunos residentes na Favela São Remo, situada em sua região de influência. Do ponto de vista da formação solidária, essa heterogeneidade é altamente enriquecedora, conforme se observa na experiência da própria escola: alunos oriundos de famílias de renda muito diferenciada entre si estabelecem vínculos de amizade que favorecem a troca de experiências de vida.
A escola, localizada no bairro Butantã, na grande São Paulo, quebrou paredes e paradigmas, hoje é um dos projetos de destaque da Educação de São Paulo. Trouxe para Educação brasileira mudanças e dúvidas, um projeto audacioso e corajoso. Tudo isso formatado com a dedicação da comunidade, alunos, pais e principalmente da Educadora Ana Elisa Siqueira.
Audacioso projeto inspirado num modelo adotado na Escola da Ponte de Portugal, a escola baseia seu Programa Educacional na autonomia e na participação dos estudantes. Paredes foram derrubadas e não há salas de aula, turmas, séries, nem exames finais. Os alunos definem áreas de interesse e desenvolvem seu itinerário de aprendizado, por meio de projetos de pesquisa individuais e em grupo.
O Projeto teve início no ano de 2004, com classes de 1º e 5º anos do ensino fundamental, tendo se expandido para os 2º, 3º, 6º e 7º anos de ensino fundamental, em 2005.
“Na medida em que fomos estudando a Escola da Ponte descobrimos que era importante ter salas grandes, onde todos os professores trabalhassem juntos e os alunos também. Fomos descobrindo como era importante o trabalho do grupo, dando muito mais sentido para o que a gente sabia depois de ler o livro. *”, completa Ana Elisa, Diretora da Escola.
Escola da Ponte – Coordenada por 28 anos pelo José Francisco Pacheco, Educador Português, que foi um dos fundadores da escola, é uma Instituição pública de ensino, localizada em Vila das Aves, Portugal. Apesar de ser Escola Básica Integrada, leciona apenas o 1º e o 2º ciclos do Ensino básico. A faixa etária dos alunos compreende aproximadamente dos 5 aos 13 anos de idade. No entanto, devido sua Filosofia de Educação Inclusiva a escola tem alguns alunos mais velhos. Atualmente o Coordenador da Escola é o Professor Paulo Toppa.
Quem conhece muito bem o projeto e já teve a oportunidade de conferir de pertinho é o Educador brasileiro Rubem Alves. Autor do livro A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir, da Editora Papirus. Ele conta, em cinco pequenas crônicas, sua visita ao estabelecimento de ensino dos sonhos de qualquer pessoa: a Escola da Ponte, em Vila das Aves, Portugal. Encantado com a filosofia aberta e desafiadora dos professores e pela alegria e eficiência dos alunos, Alves transporta o leitor a um ambiente sem competição, sem preconceitos e livre de conteúdos programáticos.
“Contei sobre a escola com que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir. Mas existia, em Portugal...Quando a vi, fiquei alegre e repeti, para ela, o que Fernando Pessoa havia dito para uma mulher amada: "Quando te vi, amei-te já muito antes...", Rubem Alves
Rubem Alves – Educador e autor do livro: A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir,da Editora Papirus.
José Pacheco - Coordenou de 1976 a 2005, a Escola da Ponte, da qual é idelizador, instituição que se notabilizou pelo projeto educativo inovador, baseado na autonomia dos estudantes. É autor de livros e de diversos artigos sobre Educação, definindo-se como "um louco com noções de prática".
Idealizador do Projeto da Escola da Ponte de Portugal, José Pacheco está sempre presente na EMEF Desembargador Amorim Lima, conferindo de perto o projeto inspirado na sua escola.
De volta a Amorim Lima - a escola há anos vem desenvolvendo projetos que objetivam melhorar a qualidade do ensino público nesta instituição. Para isso, criam oficinas de cultura brasileira que visam oportunizar não só uma nova possibilidade de aprendizagem, como também novas relações. Dessa forma, provocam uma problematização do currículo, ampliando possibilidades de saber e aprender, tanto de alunos como de educadores.
Basta passear pela escola - Quem comparecer poderá conferir as atividades de dança, poesia, circo e música que estão entre o currículo escolar diferenciado da unidade, além de barracas com comidas típicas.
Murais desenvolvidos pelos alunos espalhados para ilustrar a escola
Por ser um projeto piloto na Rede Municipal de Ensino do Brasil, necessita de parcerias, pois não dispõe de recursos próprios e necessários para dar continuidade ao seu desenvolvimento. E isso já vem acontecendo.
Para o enriquecimento do Projeto a escola conta com parcerias institucionais e o trabalho de colaboradores, que trabalham com coragem e com a convicção de que a Educação pública de qualidade é fundamental para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática.
Acreditando nessa premissa, a Escola firmou com o Planeta Educação, uma parceria que compreende um moderno plano de Integração das Novas Tecnologias da Informação e do Conhecimento no Contexto Escolar. A empresa desenvolve projetos inovadores no Laboratório de Informática Educacional, organiza o Programa de Formação dos Professores para a utilização do computador como recurso pedagógico, realiza a implantação e manutenção de equipamentos e atua também com uma Consultoria Pedagógica permanente.
Espaço Educacional de Informática da Escola
Se você quer conhecer de pertinho esse espaço, dedicado a Educação de Qualidade para todos, vá conferir. A escola será sempre apresentada pelos alunos, que com grande prazer explicam todos os projetos desenvolvidos, além de passear com você pelo grande ambiente agradável.
A EMEF Desembargador Amorim Lima, fica na Rua Prof. Vicente Peixoto, 50 Butantã – São Paulo (SP) — CEP: 05587-160Telefones: (11) 3726 8049/ 3726 1119E-mail: amorimlima@yahoo.com.br

Escola da Ponte: você matricularia seu filho numa escola assim?
A Escola da Ponte fica em Vila das Aves, a cerca de 30Km da cidade do Porto, em Portugual. Seu projeto educativo está disponível em (http://www.eb1-ponte-n1.rcts.pt/documen/projecto.pdf).
O educador Rubem Alves escreveu uma série de crônicas sobre a Escola da Ponte entre Maio e Junho de 2000 para o jornal Correio Popular de Campinas. Essas crônicas resultaram no livro "A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir", publicado pela Papirus Editora, e podem ser encontradas entre os textos e artigos do Programa Sua Escola a 2000 por Hora, do Instituto Ayrton Senna.
Na última das crônicas, Rubem Alves descreve a Escola da Ponte como "... um único espaço, partilhado por todos, sem separação por turmas, sem campainhas anunciando o fim de uma disciplina e o início da outra. A lição social: todos partilhamos de um mesmo mundo. Pequenos e grandes são companheiros numa mesma aventura. Todos se ajudam. Não há competição. Há cooperação. Ao ritmo da vida: os saberes da vida não seguem programas. É preciso ouvir os "miúdos", para saber o que eles sentem e pensam. É preciso ouvir os "graúdos", para saber o que eles sentem e pensam. São as crianças que estabelecem as regras de convivência: a necessidade do silêncio, do trabalho não perturbado, de se ouvir música enquanto trabalham. São as crianças que estabelecem os mecanismos para lidar com aqueles que se recusam a obedecer às regras. Pois o espaço da escola tem de ser como o espaço do jogo:o jogo, para ser divertido e fazer sentido, tem de ter regras. Já imaginaram um jogo de vôlei em que cada jogador pode fazer o que quiser? A vida social depende de que cada um abra mão da sua vontade, naquilo em que ela se choca com a vontade coletiva. E assim vão as crianças aprendendo as regras da convivência democrática, sem que elas constem de um programa…".
De Janeiro a Março de 2007 tive o prazer de participar do curso online "FAZER A PONTE", promovido pela Aquifolium Educacional. O "FAZER A PONTE" é um curso online, conduzido pelo Prof. Wilson Azevedo, do qual participam interagindo com os alunos diretores, professores e alunos da Escola da Ponte.
Neste post reproduzo um dos muitos correios trocados entre os participantes do curso "FAZER A PONTE". Neste correio em particular, a aluna Constança Teresa discorre sobre diferenças existentes entre a "Escola da Ponte" e as assim chamadas escolas "tradicionais".
Quando um aluno sai da Escola da Ponte e integra uma escola de ensino considerado "tradicional" a principal diferença que sente é na relação "Professor Aluno", embora o método de ensino seja também uma das desigualdades entre estes dois ensinos.
Enquanto que na Escola da Ponte há uma relação quase familiar entre a comunidade escolar, partilhando os problemas, as dificuldades tanto a nível educativo, como a nível pessoal, nas outras escolas esta relação está quase extinta. O professor é tido como uma entidade de respeito absoluto, inquestionável, com o qual seria impensável muitas vezes trocar experiências. A aula em si não deixa tempo nenhum para conversas alheias sem que isso prejudique o cumprimento do "Programa educativo", da mesma forma que quando esta termina com o som de uma campainha (pequeno instrumento que faz lembrar os Homens de que parte de si é animal e que, como tal, não tem capacidade suficiente para cumprir os seus horários sem que, para isso, tenha de ser constantemente avisado!), o professor se desloca para uma sala "interdita" a alunos e estes para o recreio, não havendo espaço para a confraternização, tão característica da Escola da Ponte.
Quanto ao ensino, tenho a dizer que a adaptação não é de todo difícil, isto porque a vida é-nos facilitada pelo professor que todas as noites tem o trabalho de preparar as aulas de forma a que ao serem expostas não possam restar dúvidas quanto à matéria leccionada, Desta forma os alunos nada mais têm a fazer senão limitar-se a copiar o que o professor escreve no quadro e, como é óbvio, tentar compreender o que está a estudar. Caso sinta que gostaria de aprofundar o seu estudo, esta situação é-lhe negada, restando-lhe apenas duas opções: estudar por si próprio ou esperar pelo seguinte ano lectivo! Isto nunca aconteceria na Escola da Ponte, uma vez que negar o aprofundamento do conhecimento não é, de todo, uma boa filosofia!
Um dos muitos aspectos positivos de ter estudado na Escola da Ponte (eu sei que estou a ser muito parcial, contudo depois de ter tido a graça de fazer parte de tão maravilhoso projecto, não posso deixar de o vangloriar!) é a autonomia que esta nos proporciona. Noto que, em relação aos meus colegas, tenho mais facilidade em realizar trabalhos de grupo, estudar individualmente e, caso surja alguma dúvida, procurar resposta para ela sem que para isso tenha de recorrer imediatamente ao professor, sendo, desta forma, muito menos dependente do mesmo quando comparada com eles.
A maior diferença que sentimos é mesmo nos "Testes". Não pelo que são, mas pelo próprio nome. Só de o ouvirmos "trememos por todos os cantos"! O problema reside no facto de estes se realizarem quer os alunos estejam preparados quer não. Na Escola da Ponte os "testes" denominam-se "avaliações" e são encarados de forma mais natural sem tanto stress nem mesmo "pressão". A estes não são atribuídas cotações que são depois expostas para que toda a escola tome conhecimento da inteligência e dificuldades de cada um!
A minha fase de adaptação ainda está no princípio devido às saudades e dificuldades em aceitar que a Ponte apenas reside no meu coração. Quanto ao resto não há nada mais fácil acreditem!
Escola dos Sonhos Existe Há 25 Anos em Portugal (*)
Entrevista com José Pacheco (**)
"Será indispensável alterar a organização das escolas, interrogar práticas educativas dominantes. É urgente interferir humanamente no íntimo das comunidades humanas, questionar convicções e, fraternalmente, incomodar os acomodados", afirma José Pacheco.
É uma escola muito engraçada, não tem salas de aula, não tem turmas divididas por faixa etária, não tem testes, não tem nada. Nada da escola tradicional que conhecemos. É uma escola feita com muito esmero em Vila das Aves, Portugal.
Na Escola da Ponte, as crianças decidem o que e com quem estudar. Em vez de classes, grupos de estudo. Independente da idade, o que as une é a vontade de estar juntas e de juntas aprender. Novos grupos surgem a cada projeto ou tema de estudo.
Quem ouve falar dela pela primeira vez hesita em acreditar. Surpresa maior só mesmo de quem a conheceu nos anos 70. A Escola da Ponte era uma escola muito engraçada, não tinha bancos, não tinha mesas, não tinha nada. O banheiro sequer porta tinha.
"Satisfazer as necessidades biológicas mais elementares constituía um teste de entreajuda: as alunas iam lá fora em grupos de cinco, ou seis, fazia-se a parede e a porta num círculo humano em torno da necessitada", lembra José Francisco Pacheco, diretor da Escola da Ponte.
Hoje, os alunos têm um espaço para publicar pequenos anúncios de oferta e procura de ajuda para realização de pesquisas escolares, reúnem-se semanalmente em assembléia para debater os problemas da escola e redigem seus direitos e deveres.
Pergunta - O que motivou a busca de uma forma inovadora de ensinar e aprender que resultou na criação da Escola da Ponte e quando isso se deu?
Resposta - "...não passa de um grave equívoco a ideia de que se poderá construir uma sociedade de indivíduos personalizados, participantes e democráticos enquanto a escolaridade for concebida como um mero adestramento cognitivo".
Em 1976, a Escola da Ponte era um arquipélago de solidões. Os professores remetiam-se para o isolamento físico e psicológico, em espaços e tempos justapostos. Entregues a si próprios, encerrados no refúgio da sua sala, a sós com os seus alunos, o seu método, os seus manuais, a sua falsa competência multidisciplinar, em horários diferentes dos de outros professores, como poderiam partilhar, comunicar, desenvolver um projecto comum?
O trabalho escolar era exclusivamente centrado no professor, enformado por manuais iguais para todos, repetição de lições, passividade. As crianças que chegavam à escola com uma cultura diferente da que aí prevalecia eram desfavorecidas pelo não reconhecimento da sua experiência sociocultural. Algumas das crianças que acolhíamos transferiam para a vida escolar os problemas sociais dos bairros pobres onde viviam. Exigiam de nós uma atitude de grande atenção e investimento no domínio afectivo e emocional. Há vinte e cinco anos, tomámos também consciência de novas e maiores dificuldades. Por exemplo, de que não passa de um grave equívoco a ideia de que se poderá construir uma sociedade de indivíduos personalizados, participantes e democráticos enquanto a escolaridade for concebida como um mero adestramento cognitivo.
Se os pais eram chamados à escola, pedia-se castigo para o filho ou contributos para reparações urgentes.
Em 1976, compreendemos que precisávamos mais de interrogações que de certezas. E empreendemos um caminho feito de alguns pequenos êxitos e de muitos erros, dos quais colhemos (e continuaremos a colher) ensinamentos, após termos definido a matriz axiológica de um projecto e objectivos que, ainda hoje, nos orientam: concretizar uma efectiva diversificação das aprendizagens tendo por referência uma política de direitos humanos que garantisse as mesmas oportunidades educacionais e de realização pessoal para todos, promover a autonomia e a solidariedade, operar transformações nas estruturas de comunicação e intensificar a colaboração entre instituições e agentes educativos locais.
Pergunta - Na Escola da Ponte não há aulas em que um professor ensine conteúdos estanques. Também não há salas de aula ou classes separadas por anos ou idades. O que foi mantido da estrutura tradicional de uma escola?
Resposta - Na Escola da Ponte, como em outros lugares, será indispensável alterar a organização das escolas, interrogar práticas educativas dominantes. É urgente interferir humanamente no íntimo das comunidades humanas, questionar convicções e, fraternalmente, incomodar os acomodados. Apesar dos progressos verificados ao nível da teoria (e até mesmo contra eles), subsiste uma realidade que as excepções não conseguem escamotear: no domínio das práticas, o nosso século corre o risco de se completar sem ter conseguido concretizar sequer as propostas do fim do século que o precedeu.
Viveremos o fim do "século da criança" ou apenas o princípio da Escola? Desde há séculos, somos destinatários de mensagens que raramente nos dispomos a decifrar. O que acontece é um regresso cíclico às mesmas grandes interrogações. Todos os movimentos reformadores se assemelham na rejeição do passado. Mas a especulação teórica sem caução da prática engendra apenas reformulações de uma utopia sempre por concretizar.
A resposta objectiva a esta pergunta é simples: hoje, somente restam vestígios da "estrutura tradicional", que transformámos em caboucos [cova ou escavação em que se assentam os alicerces de uma construção] sobre os quais assentámos os andaimes de uma escola que já não é herdeira ou tributária de necessidades do século XIX.
Pergunta - Crianças de que faixa etária convivem e aprendem juntas no mesmo espaço?
Resposta - "O critério de formação dos grupos é o afectivo e o afecto não tem idade...".
Após uma primeira fase - chamada de "iniciação" - as crianças convivem e aprendem nos mesmos espaços, sem consideração pela faixa etária, mas apenas pela vontade de estar no mesmo grupo. O critério de formação dos grupos é o afectivo e o afecto não tem idade... Já o mestre Agostinho da Silva dizia que "os grupos devem constituir-se à vontade dos alunos, para que haja coesão e entusiasmo pelo trabalho, alegria criadora de quem se sente a construir um universo".
Pergunta - Além disso, a Escola da Ponte trabalha com uma pedagogia que inclui crianças portadoras de deficiências no mesmo ambiente?
Resposta - Há 25 anos, a educação das crianças ditas com necessidades educativas especiais constituía mais um problema dentro do problema. A colocação de crianças com necessidades específicas junto dos ditos normais não era medida suficiente para se fazer o que recentemente se designa por inclusão. A inclusão não se processaria em abstracto, mas passaria por uma gestão diferente de um mesmo currículo, para que os alunos não interiorizassem incapacidades, para que não se vissem cada vez mais negativamente como alunos e depois como pessoas. Frequentemente, sob o rótulo e o estigma da diferença, priva-se a "criança diferente" (ainda que inconscientemente) de experiências que lhe permitiriam ganhar consciência de si como ser social-com-os-outros.
Hoje, em cada grupo há sempre um aluno "especial". Se os professores, por qualquer motivo, em determinado momento, não podem acompanhar directamente o trabalho de uma dessas crianças, logo um colega atento se disponibiliza para a ajudar. O Marco era um menino rotulado de filho de pai incógnito. Sofria por não ter um pai como os outros meninos. O André era um menino rotulado de mongolóide. Sofria de "necessidades educativas especiais", que o isolavam dos outros meninos. Até que, um dia, mudou de escola, foi acolhido num grupo e deixou de ter rótulo. O Marco e os seus amigos já tinham descoberto o valor do trabalho cooperativo. Quando a Ana "foi para outra escola", deixou a Sandrina entregue aos cuidados da Maria do Céu. E o Marco envolvia o André num novelo de atenção que operava milagres no aprender com os outros.
As crianças estavam absorvidas no quotidiano labor de aprender e de aprender a ser. O professor ia passando entre os grupos, disponível para o que fosse preciso. Deteve-se junto àquele, pois havia detectado a presença de estranhos instrumentos mediadores de aprendizagem. Não conteve a curiosidade. Pediu desculpa ao Marco pela interrupção e perguntou que papéis eram aqueles.
"Sabe, professor, ontem estive a ajudar o André a perceber o que era um nome. E ele parece que ficou na mesma..." — respondeu o Marco. "E então?" — insistiu o professor. "Fui p'ra casa a cismar, a cismar... E pensei em fazer umas fichas e fiz as fichas. Trouxe-as hoje e olhe que o André, agora, parece que já percebeu tudo. Não acha?" O professor não conseguiu articular a resposta. Passou a mão na cabeça do Marco. Voltou as costas ao grupo, porque a verdade é que os homens também choram. Citando, de novo, Agostinho da Silva: "Todos vamos ter que ser professores de todos e cada um dos que sabem um pouco mais ensinará os que sabem um pouco menos".
Pergunta - No padrão criado pela Escola da Ponte, os alunos decidem o que estudar, montam grupos de interesse e trabalham orientados por professores, não é?
Resposta - Efectivamente, são os alunos que decidem. E os professores estão lá, atentos e disponíveis. Quando compreendemos que cada criança é um ser único e irrepetível, que seria errado imaginar a coincidência de níveis de desenvolvimento, concluímos que não seria inevitável pautar o ritmo dos alunos pelo ritmo de um manual ou pela homogeneização operada pelos planos de aula destinados a um hipotético aluno médio. E avançámos com uma outra organização da escola, uma outra relação entre os vários grupos que constituem a equipa educativa (pais, professores, alunos, pessoal auxiliar), um outro modo de reflectir as práticas. Passou-se de objectivos de instrução a objectivos mais amplos de educação. Este projecto sugere um modelo de escola que já não é a mera soma de actividades, de tempos lectivos, de professores e alunos justapostos. É uma formação social em que convergem processos de mudança desejada e reflectida, um lugar onde conscientemente se transgride, para libertar a escola de atavismos, para a repensar. Não é um projecto de um professor, mas de uma escola, pois só poderemos falar de projecto quando todos os envolvidos forem efectivamente participantes, quando todos se conhecerem entre si e se reconhecerem em objectivos comuns. Não há escolas-modelo, mas há referências que poderão ser colhidas neste projecto como em tantos outros anonimamente construídos, cujo intercâmbio urge viabilizar. Nos últimos cinco ou seis anos, outras escolas se acercaram de nós: umas movidas pela curiosidade; outras, por outras boas razões. Poderemos já falar de uma "rede de escolas", que também já chega ao Brasil.
Pergunta - Claramente, a Escola da Ponte parece-me baseada na pesquisa. Ela suprimiu completamente a instrução?
Resposta - "Não há um professor para cada turma, nem uma distribuição de alunos por anos de escolaridade. Essa subdivisão foi substituída, com vantagens, pelo trabalho em grupo heterogéneo de alunos.".
Em 1984, Olivier Reboul afirmava que "ensinar não é inculcar, nem transmitir, é fazer aprender". Tudo é composto de mudança e também a Escola toma sempre novas qualidades. A componente instrução está sempre disponível e presente... mas só acontece quando o aluno quer. No nosso projecto, é o sujeito que se constrói na atribuição de significado ao conhecimento colectivamente produzido. Os professores acrescentaram às tradicionais dificuldades de aprendizagem dos alunos o reconhecimento das suas próprias dificuldades de ensino. E procuram concretizar um ensino diferenciado onde um mesmo currículo para todos os alunos é desenvolvido de modo diferente por cada um. Não há um professor para cada turma, nem uma distribuição de alunos por anos de escolaridade. Essa subdivisão foi substituída, com vantagens, pelo trabalho em grupo heterogéneo de alunos. Dentro de cada grupo, a gestão dos tempos e espaços permite momentos de trabalho em pequeno grupo, de participação no colectivo, de "ensino mútuo", momentos de trabalho individual... que passam sempre por actividades de pesquisa.
Pergunta - Em complemento à pergunta anterior, eu lhe perguntaria como se dá a transmissão de informações para que as crianças tenham elementos para fazer suas pesquisas e reelaborar seu conhecimento. O professor é sempre um orientador ou, em certas ocasiões, também assume o papel de instrutor?
Resposta - As dúvidas a que os momentos de pesquisa não logram dar resposta são resolvidas no encontro com um professor (a "aula directa", como os miúdos a designam), num encontro de pequeno grupo, quando os alunos o solicitam. Remetemos para plano secundário a função transmissora. Os professores só poderão dar respostas se os alunos lhes dirigirem perguntas. Só participa do encontro quem o deseja e o explicita.
A função de instruir é subsidiária, caracteriza a proto-história de uma escola aprendente. Herbert Read disse que "a Educação, no sentido mais amplo, como crescimento guiado, pode assegurar que a vida seja vivida em toda a sua natural espontaneidade criadora e em toda a plenitude sensorial, emocional e intelectual." Sem deixar de "dar o programa", nós vamos além do aprender a ler, escrever e contar, porque educar é mais do que preparar alunos para fazer exames, é ajudar as crianças a entenderem o mundo e a realizarem-se como pessoas, muito para além do tempo de escolarização.
Pergunta - E no caso da alfabetização? Em seu artigo, o senhor Rubem Alves conta que uma menina lhe explicou que, na Escola da Ponte, "aprende-se a ler lendo frases inteiras". Como a Escola da Ponte vê a alfabetização e como as crianças adquirem seus primeiros conhecimentos em língua escrita?
Resposta - Também neste capítulo, nós nada inventámos. Apenas retomámos contributos de pedagogos como Freinet. As crianças aprendem a ler naturalmente, como aprendem a falar e a escrever, e cada qual no seu próprio momento. Algumas, ao cabo de dois ou três meses, adquirem autonomia na leitura e na escrita. Vão através de histórias, de frases, da vida, em busca do "pássaro encantado (do Rubem Alves) que ama a liberdade e voa para longe, guardando nas penas as cores dos lugares por onde passa e regressando, com as saudades que são o vento do amor, ao lugar onde uma menina o aguarda, sabendo que a menina não vai fechar a gaiola".
Pergunta - Novamente sobre pesquisas... Qual é a maior fonte de informação utilizada pelos alunos? As pesquisas se dão prioritariamente na Internet ou em bibliotecas?
Resposta - Em ambas. Os alunos gerem, quase em total autonomia, os tempos e os espaços educativos. Escolhem o que querem estudar e com quem. Como não há manuais iguais para todos, a biblioteca e as novas tecnologias de informação e comunicação são locus de encontro, de procura e de troca de informação. Recorre-se, por vezes, às bibliotecas da autarquia, de familiares, de vizinhos, ou de associações locais. E, como é evidente, os professores são também uma fonte permanente de informação, segurança, interrogações, afectos...
Mais importante que os lugares e as fontes será compreender as dimensões do desenvolvimento do sentido crítico (também relativamente à recolha e selecção de informação) e do fomento da partilha da informação, no sentido da comunicação e do desenvolvimento de uma cultura de cooperação.
Pergunta - Um dos pontos que a Escola da Ponte valoriza é a autonomia de seus alunos. Que atitude os professores e a escola tomam em caso de desinteresse dos alunos ou não-cumprimento das tarefas ou dos prazos?
Resposta - Se acontecer desinteresse por parte de um aluno, a escola estará doente, estará doente o aluno, ou estarão ambos enfermos. Bastará determinar a etiologia, buscar remédio e verificar os efeitos do tratamento... A Geninha andava de mal com as amigas e com a vida. E a professora Rosa andava preocupada com aquela tristeza de muitos dias. Naquela manhã, na verificação dos trabalhos, deixou no caderno da Geninha um ponto de interrogação. Quando voltasse a passar pelo grupo, o sinal de pontuação interromper-lhe-ia a lufa-lufa [grande pressa] e recordar-lhe-ia a necessidade de meter conversa com a Geninha e de tirar aquela tristeza a limpo. Decorridos breves minutos, lá voltou. No lugar da interrogação que deixara, havia agora duas interrogações simetricamente geminadas. Um coração de linha curva a tinta azul à direita e outra linha feita de lápis à esquerda. E um ponto - que agora deveria ser final - foi um ponto de partida de palavras mansas e algumas lágrimas. A Geninha só precisava de desabafar.
Pergunta - Algo que parece ser muito incentivado é a formação de uma cadeia de solidariedade entre os alunos. Há dois espaços - "Tenho necessidade de ajuda em" e "Posso ajudar em" - em que as crianças escrevem pequenos anúncios à procura de ajuda para dificuldades em suas pesquisas. Como esse espaço funciona?
Resposta - Nos idos de setenta, ainda no tactear de um projecto, os miúdos chamavam ao trabalho de pesquisa que já iam fazendo "aprender em liberdade e com categoria". E bem sabiam o que isso significava. Nesse tempo, os professores também já trabalhavam em liberdade e com (alguma) categoria. Como? É fácil de explicar... Atente-se num excerto [trecho] de entrevista a uma professora recentemente integrada na equipa: "É o trabalho de equipa que nos faz superar o desgaste, que nos ajuda a ultrapassar os obstáculos. Facilitador é o facto de não estarmos sozinhos numa sala, termos uma perspectiva de toda a escola e não só daquele grupo que nós controlamos. Num projecto como este, a pessoa não tem aquela frieza, aquela solidão, a pessoa faz tudo com mais gosto, é mais ela e dá muito mais de si, claro. Sinto-me em família, completamente."
Tal como a professora, os alunos também se sentem "em família". E, em família, é suposto o amor e a inter-ajuda.
Pergunta - Outro espaço muito interessante são os computadores "Acho Bom" e "Acho Mal" em que os alunos expressam sua opiniões sobre as escolas. Esses instrumentos foram pensados para exercer que papel na vida quotidiana da escola?
Resposta - Entre outros, o do senso crítico, mas não só... As reuniões semanais da Assembleia e os debates do fim de cada dia de escola também se alimentam das "queixas e sugestões".
Pergunta - As crianças escreveram um documento com seus direitos e deveres. Que aspectos desses documentos o senhor destacaria?
Resposta - Clique para ampliar a declaração de direitos e deveres dos alunos da Escola da Ponte.
Talvez relevasse o facto de não constarem muitas proibições e de o documento que os próprios alunos propõem e aprovam ser a Magna Carta que lhes permite libertarem-se da tutela dos professores e serem dignos do exercício quotidiano da liberdade na responsabilidade. As nossas crianças não são educadas apenas para a autonomia, mas através dela, nas margens de uma liberdade matizada pela exigência da responsabilidade.
Buscamos uma escola de cidadãos indispensável ao entendimento e à prática da Democracia. Procuramos, no mais ínfimo pormenor da relação educativa, formar o cidadão democrático e participativo, o cidadão sensível e solidário, o cidadão fraterno e tolerante.
Pergunta - Os alunos reúnem-se semanalmente em assembléia. O que pode ser tratado nessas ocasiões?
Resposta - Para exercer a solidariedade é necessário compreendê-la, vivê-la em todo e qualquer momento. Na Ponte, cada criança age como participante solidário de um projecto de preparação para a cidadania no exercício da cidadania. Foi por isso que se constituiu, há cerca de vinte anos, a Assembleia. É por aí que passa a participação das crianças na organização interna da sua escola.
Os miúdos sabem que "a Assembleia é uma coisa importante", que "os alunos e os professores reúnem-se e discutem juntos os problemas da escola", que "aprendemos a respeitar regras e a respeitar-nos uns aos outros e a decidir o que é melhor para todos". Quando uma professora, em plena assembleia, perguntou à Catarina (sete anos de idade) "Quando acontece cidadania?", a pequena respondeu prontamente: "Acontece sempre". E, quando a professora insistiu, pedindo que a aluna explicitasse a resposta, esta acrescentou: "É quando eu levanto o braço para pedir a palavra ou pedir ajuda, quando me levanto e arrumo a cadeira sem fazer barulho, quando ajudo os meus colegas no grupo, quando apanho lixo do chão e o deito no caixote do lixo, quando ouço o meu colega com atenção, quando estou na Assembleia..."
Pergunta - Além do que pretendem estudar, o que as crianças podem decidir sobre a organização interna da escola?
Resposta - "A educação na cidadania reassumiu a sua completa expressão: os miúdos já podem dirigir propostas aos seus representantes eleitos".
Em meados de Outubro de 2000, ficou concluído mais um processo de eleição e instalação da Mesa da Assembleia de Escola. A educação na cidadania - cerne quotidiano do nosso projecto - reassumiu a sua completa expressão: os miúdos já podem dirigir propostas aos seus representantes eleitos, reunir-se em debate (todos os dias) e em assembleia (à Sexta-feira).
O "livro da quinzena" (sempre coerente com os projectos que estão a ser desenvolvidos por toda a escola em determinada quinzena) constitui-se em referência para a produção escrita. O eventual leitor poderá ser induzido a pensar que, pelo conteúdo e estilo, o texto a seguir transcrito terá o "dedinho do professor"... Efectivamente, não tem. Acrescentaremos que foi um dos vários textos que, hoje, enquanto redigia este artigo, encontrei na caixinha dos "textos inventados" - caixa dos textos que os alunos redigem quando e como desejam -, escrito pela Cláudia, que tem oito anos de idade. Vejamos alguns excertos:
"Caminhos da liberdade
Como a nossa escola tenta ser um exemplo de cidadania, temos um livro da quinzena que nos fala, exactamente, desse tema. É um livro chamado "A cidadania explicada aos jovens e aos outros", escrito pelo poeta José Jorge Letria. Diz-nos que, todos os dias, fazemos coisas que têm a ver com cidadania. Que uma pessoa só é bom cidadão quando tem capacidade para se orientar pelos direitos e deveres que estão nos documentos como a Constituição da República (...) A solidariedade é uma maneira de ser bom cidadão. Nós temos solidariedade quando ajudamos a dar melhores condições às vítimas das guerras, quando ajudamos alguém a atravessar a rua (...) Com o que estamos a aprender com este livro, resta-me concluir que a cidadania é uma forma de participar na vida colectiva e de saber ter consciência para melhorar a vida dos outros." Ou, como escreveu a Francisca (de oito anos) num outro "texto inventado", "ser cidadão é, acima de tudo, respeitar os outros."
Pergunta - É verdade que as crianças organizam tribunais para julgar os casos de indisciplina?
Resposta - Em 1998, o tribunal foi substituído por uma "Comissão de Ajuda" (por decisão da Assembleia!) com composição e funções muito diferentes. O velho e ineficaz "castigo" foi substituído pelo "ficar a reflectir" e pela ajuda de "fadas orianas" (quem já leu o livrinho da Sophya do Mello Breyner saberá ao que as crianças se referem).
Voltemos à "caixinha dos segredos". Como o objectivo dos objectivos é fazer das crianças pessoas felizes, foi instituída uma "caixinha dos segredos". É aí que a pesquisa das almas inquietas (indisciplinadas?) começa. Na caixa de papelão, os alunos deixam recados, cartas, pedidos de ajuda. A "caixinha dos segredos" ensina os professores a reaprender. É que nem sempre o que parece ser "indisciplina" o é. Os "recados-segredos" provam-no: "Todas as manhãs, o Arnaldo já chega cansado de duas horas de trabalho. Antes de rumar à escola, o Rui foi ao lavrador buscar o leite, levou os irmãos mais pequenos ao infantário, fez os recados da Dona Alice, arrumou a casa toda. O Carlos falta quase todas as tardes. O pai manda-o distribuir por toda a vila as folhas que dão notícia dos falecimentos da véspera, ou tem que carregar as alfaias dos funerais".
O tempo amareleceu as folhas dos "recados" onde as crianças deixaram ficar pedaços de vida. Aos nove anos, o Fernando disse o que queria ser quando fosse grande, escreveu os projectos do seu futuro para sempre destruídos num estúpido acidente na mota que ele comprara com os primeiros salários de tecelão. Outros não chegaram a adultos por se deixarem envolver nas teias que a droga tece. Houve também quem abandonasse a escola e optasse pelas lições que a escola da vida oferece. Haverá ainda alguém que ouse falar de "indisciplina" nas escolas?
Confesso a minha completa ignorância, de indisciplina nada sei. Sei apenas de crianças que dão lições de autodisciplina na sua escola. Sei de crianças que não entendem a indisciplina do gritar mais alto que o próximo, nas assembleias de adultos, porque na sua assembleia semanal erguem o braço quando pretendem intervir. Sei de crianças de seis, sete anos, que sabem falar e calar, propor e acatar decisões. São crianças capazes de expor, com serenidade, conflitos e de, serenamente, encontrar soluções. São cidadãos de tenra idade que, no exercício de uma liberdade responsavelmente assumida, instituíram regras que fazem cumprir no seu quotidiano. Poderão continuar a chamar-lhes alunos "utópicos", que nem por isso eles deixarão de existir.
A "indisciplina" é a filha dilecta do autoritarismo e da permissividade. A disciplina a que me refiro é a liberdade que, conscientemente exercida, conduz à ordem; não é a ordem imposta que nega a liberdade. Como poderemos pensar em controlar as águas revoltas de um rio, se nos esquecemos das margens que as comprimem?
Pergunta - Finalmente, sou levado a perguntar sobre a participação dos pais. Como é o relacionamento e o intercâmbio entre pais e escola? Que tipo de contribuição eles dão à escola?
Resposta - A concepção e desenvolvimento de um projecto educativo de escola é um acto colectivo e só tem sentido no quadro de um projecto local de desenvolvimento. Um projecto consubstanciado numa lógica comunitária pressupõe ainda uma profunda transformação cultural. O sucesso dos alunos depende da solidariedade exercida no seio de equipas educativas, que facilita a compreensão e a resolução de problemas comuns. Em 1976, os pais não apareciam na escola, mas acreditávamos que seria possível estabelecer comunicação com as famílias dos alunos, se os pais não fossem chamados apenas para escutarem queixas ou contribuírem para reparações urgentes. Questionávamo-nos por que razão eles iam à igreja, ao estádio, ao café... e não vinham à escola.
Quando encontrámos resposta, ajudámos os pais dos alunos a fundar uma associação num tempo em que ainda não havia leis para as regular. A associação de pais é hoje um interlocutor sempre disponível, um parceiro indispensável. Mas a colaboração dos pais não se restringe às actividades promovidas pela sua associação. No início de cada ano, todos os encarregados de educação participam num encontro de apresentação do Plano Anual. Mensalmente, ao sábado de tarde, os projectos são avaliados com o seu contributo. E há sempre um professor disponível para o atendimento diário, se algum pai o solicita.
A prática diz-nos, ainda hoje, que os pais têm dificuldade em conceber uma escola diferente daquela que frequentaram quando alunos mas que, quando esclarecidos e conscientes, aderem e colaboram.

Na foto, detalhe das crianças em uma das assembléias semanais, em que discutem os problemas da Escola da Ponte, em Vila das Aves, Portugal. José Francisco Pacheco dirige a escola.

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